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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Conto do Príncipe Caído

Este conto não é meu. Foi feito por Rob Gordon, do Championship Chronicles. Mas eu achei bastante interessante e vou reproduzi-lo abaixo.

 

E um dia o Príncipe voltou de viagem para o seu Reino, após semanas viajando por outras terras. Era uma manhã de Sol e o Príncipe entrou na cidade aos pés do seu castelo, montado sob seu cavalo branco. Mas o povo não estava nas ruas para recebê-lo.

O Príncipe estranhou o silêncio. Sempre que retornava de viagem, era recepcionado com festa e música. Bandeiras coloridas enfeitavam a cidade, e a praça central ficava tomada de gente: crianças brincando de roda, jovens namorados fazendo promessas de amor, famílias inteiras querendo ver o Príncipe de perto. À noite, banquetes imensos eram oferecidos.

Não era uma forma de tributo. Era apenas a maneira de o povo celebrar que seu Príncipe havia retornado para o lar, e estava entre eles novamente.

Mas desta vez, não havia bandeiras ou festas. No lugar da música, havia apenas silêncio. No lugar da multidão, festiva, apenas o vazio. Cavalgando pelas ruas de pedras, percebeu que era a única pessoa do local. Todas as casas estavam fechadas. As janelas estavam cerradas, as portas trancadas. Seu castelo estava trancado, as luzes apagadas.

O Príncipe chamou pelo povo, mas obteve como resposta apenas os ecos do galope de seu garanhão. Percorreu a cidade inteira. Rua por rua, pátio por pátio, praça por praça. Não havia ninguém. Galopou pelas fazendas, nos extremos da cidade, mas não encontrou o povo.
Chegou aos limites da cidade e, sem saber para onde ir, entrou na floresta.

Conhecia bem a mata. Havia aprendido a caçar ali, quando criança. Sons de pássaros invadiram sua mente.

Após alguns minutos, deparou-se com uma figura vestida de branco dentro de uma palhoça. Era a Vidente, mulher que vivia ali, reclusa, há décadas. O povo a evitava, por superstição, chamando-a de bruxa e evitando olhar para ela nas poucas vezes em que entrava na cidade. Mas o Príncipe sabia que, apesar de excêntrica, era inofensiva.

Assim sendo, se aproximou da mulher e a chamou.

– Vidente! Onde está meu povo?

A velha, que fiava numa espécie de máquina, levantou os olhos e encarou o Príncipe em silêncio por alguns segundos. O Príncipe devolveu o olhar. Ficaram assim por alguns segundos, até a Vidente suspirou e interrompeu suas tarefas, levantando-se.

– Povo? O senhor não tem mais povo.

– Como não? Sou o Príncipe.

– O senhor não é mais o Príncipe. Teu povo não te quer mais.

– Que sandice é essa?

– Teu povo não deseja mais um Príncipe. Eles acham que não precisam do senhor.

O Príncipe desmontou do cavalo e aproximou-se da mulher. Olhou-a em silêncio, procurando por traços de mentira em seu rosto.

– Vidente, conte a verdade.

– Esta é a verdade. Teu povo lhe renegou.

– Mas por qual motivo?

– Não há motivo. Pelo menos, não é um motivo que eles possam entender. Eles apenas não o querem mais.

– Mas qual a razão disso? Eu sempre cuidei do meu povo. Sempre lhe provi com alimentos e festas. O Reino não está em paz há décadas? Prosperando?

– Sim.

– Mesmo em momentos difíceis, sempre fiz questão de levar a vontade do povo em consideração. Permiti que eles governassem lado a lado comigo. E perdoei todos seus erros. As poucas pessoas que bani do reino, não o fiz por capricho, mas por saber que seriam prejudiciais ao meu povo.

– Eles sabem disso.

– Durante toda a minha vida, eu coloquei as vontades do povo acima das minhas. Governei por eles, jamais por mim.

– Sim. Este é justamente o problema. O senhor tornou as coisas fáceis para eles. Agora, eles acham que é fácil ser feliz e prosperar. Que não existe outro modo de viver, que não seja feliz. Acham que fácil. Fácil a ponto de não precisarem de um Príncipe.

– Como assim?

– Eles não percebem que tudo era fácil porque o senhor estava aqui. Eles não conseguem entender isso. Apenas acham que é fácil. Acreditam que sempre estarão felizes, bem alimentados e protegidos. Estão certos de que sempre estarão protegidos, sem desconfiar que era o senhor quem os protegia o tempo todo, Príncipe.

– Mas eu sempre estive com eles. Como eles não percebem meu valor?

– Eles não percebem seu valor porque eles não conhecem outra vida. Eles não sabem como é a vida real. Não fazem idéia de que existe pobreza, guerras e doenças. Porque o senhor nunca deixou isso se aproximar deles. E como eles não conhecem nada disso, não sabem o valor que o senhor tem. Eles não sabem o que é viver sem um Príncipe.

– Cuidar do meu povo foi errado, então? Deveria ter sido tirano?

– Talvez. Mas esta pergunta é desnecessária. O senhor sabe que jamais teria conseguido agir desta forma.

O Príncipe parou e refletiu. Queria recuperar seu Reino, mas ainda não havia aprendido a pensar nele. Pensava apenas no povo. O povo sempre havia sido sua maior preocupação, desde que havia nascido.

– E eles conseguirão? Prosperar sem mim? Terão sucesso nisso?

– Não. Talvez prosperem. Mas apenas o suficiente para sobreviver. Jamais como prosperam hoje.

– E o que acontecerá então?

– Chegará um momento em que eles perceberão que tudo se tornaria mais fácil se existisse um Príncipe justo, bondoso e compreensivo cuidando deles.

– Um Príncipe como eu.

– Um Príncipe como senhor.

– E aí, recuperarei meu trono?

– Não, Príncipe. Neste momento, o senhor já estará longe. Seu povo ainda se lembrará... Seu nome será lembrado ao redor de algumas fogueiras. Mas o senhor estará longe. Pois muito tempo se passará até que isso aconteça.

– Então, é isso. Não há retorno. Nem mesmo quando eles aprenderem meu valor? Quando eles enxergarem tudo o que lhes dei?

– Não, não há.

– E eles encontrarão outro Príncipe para cuidar deles?

– Talvez. Mas jamais será como o senhor. Não haverá outro bondoso, justo, ou compreensivo. Não como o senhor.

– Então, tudo o que fiz foi mostrar a eles o caminho que os levará à descoberta do valor real de um Príncipe, mas de um Príncipe que eles jamais terão novamente?

– Exato. Eles só aprenderão teu valor no momento em que ficarem sem o senhor. Mas aí será tarde demais.

– Isso não é justiça. Eu não quero que meu povo saiba meu valor apenas quando for tarde demais, quando eu não puder retornar.

– Príncipe, o fato de o senhor ter sido justo com seu povo a vida inteira não faz com que eles sejam justos com o senhor. Ou com eles mesmos.

– Há algo que possa ser feito? Algo que eu possa fazer por eles?

– Não. O caminho deles é diferente do seu, agora. Eles assim quiseram.

– Vidente, faça algo por mim.

– Sim, senhor.

– Cuide de meu povo por mim.

– Não é o meu papel, Príncipe. Também não é mais o teu.

Resignado, o Príncipe montou em seu cavalo, sob o olhar da Vidente. Palavras lhe faltavam. Tocou a jóia verde que carregava no pescoço, símbolo de seu poder, com a ponta dos dedos. Suspirou, resignado. Arrancou a corrente de ouro com as mãos e jogou a pedra longe, no mato. Esperou alguns momentos e olhou novamente para a mulher.

– E eu, Vidente? Encontrarei outro reino?

– Talvez. Teu destino é incerto. Mas saiba que se você encontrar outro, jamais reinará tão bem como reinou aqui, Príncipe. Vocês dois perderam hoje. Você e o povo.

Olhou fixamente para a mulher, até que deu um grito com seu cavalo e saiu cavalgando floresta adentro, deixando a cidade para trás.

Pouco antes de desaparecer na mata, o Príncipe parou seu cavalo e olhou na direção do seu castelo. Ficou imóvel por alguns minutos, até que secou os olhos e partiu cavalgando.

E nunca mais foi visto.

Moral da história: Não há. Porque algumas histórias simplesmente não têm moral. Foi isso que o Príncipe descobriu quando olhou para seu castelo pela última vez. Foi isso que o fez chorar.

E que assim seja.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Change of Plans

Em outro momento, fiz comentários sobre o planejamento, e todos sabemos que isso é importante. Assim como é importante estar preparado para todas as alterações que podem ocorrer, graças ao acaso ou outros fatores.

Vamos usar uma metáfora.



Há tempos, eu fiquei de comprar um vinho verde. Havia experimentado e queria que outras pessoas experimentassem também. O plano original era beber algum dia com uma pessoa amada.

Ai houve uma mudança.

Depois, imaginei tomar esse vinho para comemorar uma data que imaginei ser muito importante. Bem, pelo menos para mim foi.

Ai houve uma mudança.

Hoje, espero tomar esse vinho para comemorar minha nova moradia. Ainda com uma pessoa amada.

Mais pode haver mudanças...

Esse é um exemplo de como as coisas podem ser alteradas. E como é preciso estar pronto para elas. Porque, se não puder comemorar minha nova moradia, o vinho terá outra finalidade...

So be it.